| Palestra:
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"De
Rolemaster a Ptolus: 20 anos de
RPG"
Por
Monte Cook, autor e editor de
RPG |
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Texto
de Valéria Aparecida
Bari
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Há
vinte anos atrás, a editora
de jogos mais famosa e bem sucedida
era a TSR. Naquela
época, a ICE
se "alimentava das migalhas que
esta grande empresa deixava cair da
mesa". Isto ocorria naturalmente,
pois todos começavam a jogar
RPG pelo D&D, eventualmente experimentando
outros sistemas depois. Uma minoria
destes experimentadores chegava a
jogar Rolemaster.
Nos
anos 1980, Monte Cook
tornou-se o gerente da linha Rolemaster,
cujo principal produto do momento
era o RM Companion, um compêndio
de regras opcionais. Isto era uma
novidade no momento, pois até
então, os sistemas publicavam
somente regras normais e suplementos
de aventuras. Essa mudança
demonstrava o amadurecimento do RPG
e o atendimento das novas demandas
dos jogadores mais maduros, que buscavam
a personalização de
suas campanhas e vivênciar novas.
Este pensamento perdurou e, por regras
de mercado, sabe-se até hoje
que um sistema de RPG só sobrevive
se oferecer seis suplementos no mínimo.
Passaram-se
dez anos neste período de mudança.
Nos anos 1990, a ICE
enfrentou sérios problemas
financeiros, que eram conjunturais,
pois os jogadores de RPG desenvolveram
outros interesses, e agora consumiam
também vídeo-games ou
jogos de computador. Com isso, Monte
Cook acumulou a gerência
do sistema Champions. Isso
foi muito engraçado e exigiu
"jogo de cintura", pois
o sistema Champions era tão
aberto e flexível, quanto o
Rolemaster era muito rígido
e inflexível. Como a mentalidade
da equipe de criação
e do público-alvo acompanhava
as características dos sistemas,
estas duas turmas eram como "água
e óleo", jamais se misturariam.
Monte Cook teve de
lidar com isso e ocultar esta "dupla
personalidade". Felizmente, os
jogadores de um sistema nem olhavam
a capa dos livros do outro. Então,
ninguém percebeu que ele era
o responsável pelos dois ao
mesmo tempo.
Como
era mais velho, Monte Cook
experimentou antes vários sistemas
(ao longo dos anos 1980) e gostava
muito dos dois, verificando que o
Champions realmente servia para fazer
ótimas aventuras com os temas
das histórias em quadrinhos
que lia regularmente.
A
situação da ICE
se agravando cada vez mais,
chegando a ameaçar o seu emprego.
Antes que as coisas piorassem, Monte
Cook decidiu retirar-se da
empresa e tentar a sorte como free-lancer.
Sabia que esta era uma situação
temporária, pois o melhor era
tentar uma colocação
na própria TSR,
para ter futuro como criador de RPG.
Cook
foi procurado para desenvolver uma
nova edição do sistema
para a TSR, chamado
Marvel Super-Heroes. Ao terminar,
recebeu uma encomenda bem maior, Marvel
no Espaço: uma caixa com
muitos livros e o sistema dentro,
que seria o maior produto em caixa
que a TSR já
tinha produzido. Este trabalho levou
um ano e meio, até que a TSR
cancelou todo o projeto, que jamais
foi publicado. Apesar de ter sido
pago, Monte Cook
continuava sem nenhum produto publicado
pela TSR com seu
nome. A própria editora, percebendo
a situação, ofereceu-lhe
um projeto de Gamma World,
que também acabou cancelado.
Monte
Cook já estava ficando
traumatizado, mas dessa vez perdeu
menos tempo, apenas um mês.
Para remediar, ofereceram um projeto
de Forgotten Realms, sobre
a ecologia de Elminster.
E finalmente, depois de um longo e
tenebroso inverno, saiu um produto
da TSR com o seu
nome.
Nesta
época, o Vampiro: a Mascara
já tinha sido lançado
e estava mudando os hábitos
dos jogadores de RPG, principalmente
os mais jovens. Assim, a editora White
Wolf estava progredindo e
alcançando a TSR.
Antes que as duas editoras chegassem
a competir, surgiu um Card Game
de grande sucesso, o Magic: the
Gathering, da Wizards
of the Coast. A TSR,
verificando as novas tendências
do mercado, resolveu ampliar sua oferta
de produtos, inclusive com Card
Games. Essa necessidade da TSR
fez com que, finalmente, Monte
Cook fosse contratado.
Só
que havia um problema: Monte
Cook ficou com medo de aceitar,
pois todos diziam que a empresa TSR
era uma verdadeira masmorra,
que só faltava acorrentar os
empregados às mesas. Os próprios
contratadores pagaram sua passagem
de avião e estadia de hotel,
para que ele pudesse visitar seu novo
local de trabalho e ver se gostava.
Depois que descobriu que havia muita
maldade nos comentários sobre
a TSR, aceitou o
cargo e mudou-se para Wisconsin.
Cook
começou imediatamente a trabalhar
em uma caixa, Glantri, que
continha vários CDs com trilhas
sonoras, falas de NPCs e efeitos sonoros
para a ambientação de
partidas de RPG, cuja responsabilidade
recaiu sobre ele.
Monte
Cook era subordinado ao irmão
do dono da editora, um rapaz muito
mais vaidoso do que competente, e
queria "deixar sua marca",
alterando milhões de vezes
os trabalhos e levando Cook a fazer
"zilhões" de horas
extras, acompanhado da editora chefe,
Sue. No final, Glantri
foi publicado, Monte
Cook e Sue
estavam apaixonados, e tudo acabou
em festa de casamento.
Depois
deste conturbado projeto, Monte
Cook dedicou-se a criação
de um novo universo Dark Sun,
que consistia basicamente em "um
grupo de elfos malucos que pulavam
de asa delta e roçavam nas
pedras". Em seguida, desenvolveu
uma aventura especial de D&D,
chamada "Os labirintos da
Loucura". Com todos estes
lançamentos, a TSR não
conseguia recuperar o seu status e
seus ganhos, pois estavam pouco preocupados
com a concorrência dos produtos
digitais.
Um
dos diretores, David Zeb Cook,
percebeu que "a moçada"
não queria mais saber de masmorras,
criando ambientações
fora do padrão. Logo que David
resolveu retirar-se da TSR,
Monte Cook ofereceu-se
para prosseguir em seu projeto, chamado
Plane Scape. Concluiu assim
seu último trabalho para a
TSR, sabendo que
a crise da editora o tinha feito produzir
os trabalhos mais criativos de sua
vida.
Finalmente,
a TSR foi comprada
pela Wizards of the Coast.
Os funcionários da TSR
foram todos transferidos para Seattle,
sob o comando de Peter Adkinson,
que não gostava das edições
mais novas de D&D.
Por exemplo, a segunda edição
de D&D
estava "expurgada" de todos
os demônios e diabos.
A
volta à ativa dos demônios
e diabos ocorreu numa aventura criada
por Monte Cook, chamada
"O paladino no inferno".
Em seguida, editou a terceira
edição de D&D,
que resgatava essas e outras características
da primeira edição.
As modificações foram
feitas com muita liberdade, já
que muito pouca gente jogava D&D
naquela época (justamente porque
Peter Adkinson estava
certo). A Monte Cook
coube trabalhar especificamente com
o Livro do Mestre,
além de ajudar a editoração
do sistema em geral.
Quando
o material foi enviado a Gary
Gygax (um dos dois autores
do D&D
original, junto com David
Arneson), para revisão
editorial, ele disse que tudo estava
bom, mas o Livro do Mestre
estava "divino e maravilhoso".
Este foi um dos momentos mais importantes
na vida de Monte Cook,
que lhe trouxe muita alegria e prestígio
profissional. Com isso, ele foi designado
para escrever a primeira aventura
para a nova edição
D&D, e servir
de referência a todos os mestres
e criadores que prosseguiriam nos
suplementos, "O retorno ao
templo do mal elemental".
O
novo sistema de D&D,
chamado d20,
foi separado e adaptado para outras
temáticas. Monte Cook
gostava muito de Call of Cthulhu
e sugeriu que este era um bom cenário
para fazer o teste com o d20.
Sugestão aceita, foi feito
um acordo com a Editora Chaosium,
que fez muito sucesso e abriu as portas
para todas outras adaptações.
Qualquer editora interessada poderia
usar o d20, que foi
registrado com uso livre (open
source), tornando vários
sistemas de RPG compatíveis,
facilitando muito a vida dos mestres.
Monte
Cook já pensava em
sair da Wizards of the Coast,
quando editou mais um material para
ajudar os mestres, o Book of Darkness.
Neste novo momento profissional, abriu
com sua esposa Sue
a editora Malhavoc Press,
para lançar no mercado um produto
totalmente novo e de qualidade: o
Arcana Evolved,
um sistema muito prático para
quem já jogava D&D,
mas não era um mero "suplemento
disfaçado".
Com
o grande sucesso desse sistema, Monte
Cook e sua esposa, Sue
Cook, resolveram lançar
outro produto, o Ptollus,
que recuperava todo o cenário
que ele criou para mestrar em sua
adolescência. A editoração
deste sistema também inova
por agregar características
de outros tipos de publicação,
como guias de turismo e livros didáticos.
Atualmente,
a criação de jogos está
alterada pelas mídias digitais
e suas linguagens. Mas, para Monte
Cook concluiu sua palestra
recomendando que o maior esforço
dos criadores e editores deve ser
a diversão dos jogadores, pois
esta é a característica
mais importante de um RPG.