| Palestra:
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"Como
Escrevi meu Primeiro RPG, aos
Dezenove Anos."
Por
Monte Cook, autor e editor de
RPG |
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Texto
de Valéria Aparecida
Bari
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Monte
Cook
foi uma criança curiosa e irrequieta,
cuja vivacidade e os sonhos lhe renderam
o seu atual meio de vida e muitas
alegrias para os jogadores de RPG.
Ele
é autor e editor de RPG
há mais de vinte anos, com
sua primeira obra publicada aos dezenove
anos de idade. Estes acontecimentos
não foram repentinos em sua
vida, as coisas foram ocorrendo devido
às oportunidades que teve e
a visão pessoal de que seus
desejos poderiam se realizar. Quando
tinha dez anos de idade, na aula de
catecismo, escutou dois colegas narrando
sobre como iriam conseguir recuperar
uma coroa encantada, usando um mapa
desenhado em um papel quadriculado.
Assim que a aula terminou, "intimou"
seus "dois novos amigos"
a incluí-lo nesta aventura
e, assim, nascia mais um jogador de
RPG.
Desde
então, Monte Cook evoluiu de
jogador à mestre, num processo
marcado pelas dificuldades do início
do desenvolvimento do hobby. Para
criar suas aventuras iniciais, a falta
de materiais bibliográficos
disponíveis também favoreceu
a criação própria
de NPCs e criaturas, ou a sua adaptação
de obras da literatura e filmes, já
que Cook sempre gostou de ler. Aos
quatorze anos, quando fazia compras
em uma das livrarias que freqüentava,
ele viu um livro cujo autor tinha
o mesmo sobrenome que o seu. Ficou
perplexo e pensou: "Se um Cook
pode ser escritor, eu também
posso, posso ser um criador de jogos".
Esta idéia se transformou num
sonho, que Monte Cook acalentou até
a juventude.
Enquanto
isso, Cook acompanhou a evolução
do Rolemaster,
seu sistema preferido, e experimentou
muitos outros. Sem que Cook soubesse,
um amigo seu foi a uma convenção
de RPG e apresentou seu material aos
editores da ICE,
insistindo que seria uma excelente
idéia convidá-lo para
escrever um compêndio sobre
seus monstros. Devido à insistência,
os editores realmente convidaram-no
para escrever um manual de monstros
para o sistema Rolemaster. Apesar
de ter aceitado imediatamente o convite,
não havia contado com os inúmeros
problemas e obstáculos que
teria de enfrentar para cumprir a
tarefa em seu tempo disponível:
as férias da faculdade, conciliando
isso com um trabalho de verão.
O
seu amigo leu o manual editorial,
orientando a sua elaboração
da proposta e prevenindo-o sobre a
necessidade da digitação
do livro, numa época em que
NINGUÉM possuía micro-computadores.
A oposição da mãe
também atrapalhou bastante,
mas o apoio do pai e da namorada foi
uma forma de compensação.
Assim como os problemas apareceram,
foram surgindo as soluções:
um amigo de seu pai tinha um computador
velho e obsoleto, mas que servia perfeitamente
para o serviço. A namorada
de Cook transcrevia suas idéias,
enquanto ele dirigia o seu carrinho,
para que pudessem passar mais tempo
juntos.
Como
ele trabalhava em uma loja de fogos
de artifício durante o dia,
inspirava-se nos estranhos nomes dos
produtos chineses para batizar os
monstros. Não deixava as idéias
escaparem em momento algum, tinha
rascunhos em todo tipo de guardanapos
e papéis de embrulho.
Finalmente,
ele entregou a primeira versão
de seu livro, que julgava estar perfeita.
Depois de uma longa espera, o editor
Kevin ligou e fez o primeiro conjunto
de observações para
correção. Ele odiou
o seu futuro amigo e resistiu às
mudanças propostas, mas o editor
era experiente com escritores "novinhos"
e negociou tudo com muita paciência.
Depois
de tudo pronto, a demora pela edição
foi terrível, infinita. Monte
Cook voltou para a faculdade, completou
seu semestre, fez seu aniversário
de vinte anos, ligou muitas vezes
para a ICE, por longos sete meses.
Um dia, na volta da aula, encontrou
em casa o pacote que o correio entregara.
Sentir o cheirinho do livro, o papel,
ler seu texto diagramado e ilustrado,
encontrar seu nome na página
de rosto, foi indescritível.
Este foi um dos dias mais felizes
de sua vida. Também rendeu
um artigo, publicado no jornal da
Universidade, onde sua obra e sua
foto foram divulgadas. Isto foi o
combustível que ele necessitava
para fazer uma nova proposta à
ICE, que foi aceita também.
Entre
a edição do primeiro
e do segundo livro, concluiu a faculdade,
graduando-se em Literatura e História
Antiga. Já formado, e desempregado,
começou a fazer pressão
para que a ICE finalmente o contratasse
como editor de RPG. A editora apenas
abriu uma "fresta", dando-lhe
a oportunidade de fazer um estágio
de verão. Ele tornou-se um
"escragiário", tirando
xerox, servindo café, fazendo
de tudo e procurando tornar-se indispensável.
Venceu pelo cansaço e foi finalmente
contratado. Desde então, nunca
mais trabalhou em algo que não
lhe desse prazer e que não
fosse vinculado ao RPG, que por isso,
para ele não foram "empregos
de verdade", como os das outras
pessoas.
Fez
muitos amigos, conheceu a sua esposa
e sabe que proporcionou momentos de
muita diversão aos jogadores
de RPG do mundo. A sua vida profissional
prova, para ele mesmo e para todos
que incentivaram seus talentos naturais:
que é importante sonhar; que
a escola e a leitura não são
apenas um tempo e espaço de
formação, mas também
de fantasia; que é preciso
valorizar e acreditar em nossos sonhos
e nos daqueles que amamos.