A
confluência da Forquilha
No
início da década de 90, o mercado para as histórias
em quadrinhos no Brasil tornou-se muito instável: a crise
financeira gerada pelo pacote econômico do presidente
Fernando Collor desestabilizou as editoras e fez com que essas
produzissem materiais destinados a fácil comercialização,
tornando quase impossível a publicação
de quadrinhos autorais. Gilberto Firmino, apoiado pela Editora
Devir, editou em 1996, com grande qualidade gráfica,
o quarto livro de Lourenço Mutarelli.
Nesse
período, a confecção de histórias
em quadrinhos havia virado apenas um hobby para o quadrinhista,
visto que se sentiu impulsionado a fazer ilustrações
para livros de RPG [8], porque o valor que se pagava por página
de quadrinhos era inferior ao das ilustrações.
O
autor aproveitou a peculiaridade do momento econômico
para denunciar, simbólica e conscientemente, a depreciação
da linguagem das histórias em quadrinhos. Matheus, o
protagonista, representa o próprio artista que se viu
trabalhando apenas por dinheiro, contrariando seus princípios
de utilizar os quadrinhos como sua melhor forma de expressão
e comunicação. Esse novo herói é
um artista que pinta sempre a mesma temática, sempre
o mesmo rosto, às vezes semelhante a Beethoven, outras
a Baudelaire e Larry, dos 3 Patetas.
Sendo
traído e abandonado pela esposa, entrega-se nas mãos
daquele que seria a personificação do diabo, Moloc,
que vive para aprisionar e sugar a vida dos seus condenados.
É possível fazer uma análise ambígua
da história, visto que o autor pode ser visto tanto como
a vítima do sistema, que é usado, mas também
como o manipulador, que usa suas produções de
forma (muitas vezes) terapêutica... |