O
Bar Brasil, criado à imagem e semelhança
do boteco que abrigava nossas reuniões de pauta
no baixo-lapa, seria o ponto de encontro entre a situação
e oposição dividida pelo regime militar.
Inspirado
no temperamento ciclotímico do General João
Batista Figueiredo, que ia da depressão abúlica
à euforia galopante (pra usar um termo bem adequado,
já que o referido pertencia à cavalaria)
e que, à todo momento, ameaçava prender
e arrebentar quem fosse contra a abertura patrocinada
por ele, o Bar Brasil o abrigava paramentado como dono
de botequim, avental vermelho e tamancas que a qualquer
momento poderiam ser arremessadas na direção
de um usuário mais atrevido.
Retrato
do momento político, o Bar era uma metáfora
adequada àqueles tempos em que falar abertamente
poderia ser considerado ofensa.
Enquanto
espaço cênico, algumas considerações
foram sempre levadas a sério, a saber:
1.Aparência
de quitanda do interior, com três portas encimadas
por arcos metálicos que abrigariam a meu ver,
representantes do esquêmico espectro político
delineado por aqueles tempos bicudos: direita, centro
e esquerda, bem antes da propalada centro direita ou
centro esquerda, como alguns políticos preferem
ser denominados.
2.
Ao contrário do cenário suntuoso dos palácios
de Brasília, o boteco serviria para um rebatimento
adequado, no plano do cotidiano, de todas as decisões
palacianas distantes de suas ressonâncias no dia
a dia das pessoas, em geral vítimas dessas mesmas
decisões.
3.
Os personagens circulantes por esse cenário seriam
todos sobejamente conhecidos, oriundos do nosso mundo
político, de comportamento e de costumes.
A partir dessas premissas, inicialmente contando com
a colaboração de um parceiro, o repórter
político Alex Solnik, criávamos semanalmente
para a revista Careta, editada por Tarso de Castro,
um comentário bem humorado e sarcástico
dos tempos que corriam.
A
revista durou dezenove números e, quando o editor
proclamou seu fim, nos baldeamos para outra publicação
da editora, a Revista Status, criando histórias
em quadrinhos da política e comportamento nacionais,
que abrangiam a anistia, a volta de Fernando Gabeira
do exílio e a conseqüente liberalização
dos costumes, a Copa do Mundo de Futebol sobre a ótica
da geopolítica ( uma palavra pré-globalização)
etc.
Mais
tarde fomos albergados, eu e meu parceiro que fazia
às vezes de reporte de campo e argumentista,
nas páginas da revista Senhor, em vias de se
tornar semanal.
O
que aconteceu com a chegada de Mino Carta à direção
da revista, cuja condução durou em torno
de dez anos.
Nesse
período, no final dos anos oitenta, rompemos
a parceria e comecei a publicar a página semanal
com meus próprios argumentos e roteiros.
Coincidindo
com a morte de Tancredo Neves e grande frustação
que se seguiu, intuí a continuidade do nosso
processo político não mais apenas através
da sátira ao poder central, simbolizado no Bar
Brasil, mas sim através da própria abertura
política, que nos traria indiscutivelmente novos
parâmetros do poder, interferindo naquela visão
nuclear oriunda do regime militar.
Nasceu
então a Avenida Brasil, uma imagem da transição
pela via das dúvidas, como intitulei na primeira
coletânea da série.
Ali,
naquele espaço expandido, como em uma maquete
do nosso cenário político, estavam representados,
além do Bar Brasil, imagem do poder central,
a farmácia Droga Nova República, rebatendo
para ela os comentários sobre as consequências
da nossa sempre frágil política de saúde,
a panificadora Centrão, espaço dos acordos
e arreglos à minuta entre os políticos
conservadores do Congresso Nacional, contando pra isso
com a colaboração de notáveis como
José Lourenço ou Robertão Cardoso
Alves, entre outros e que, logo a seguir esteriam representados
no Shopping Center O Conjunto Nacional, local onde os
pais ensinam os filhos a gastar o seu, o meu, o nosso
precioso dinheirinho, na praça de alimentação
deles.
Paralelamente
ao contexto do grafismo, desenvolvi também a
concepção cênica e musical desse
universo, com composições musicais como
Bar Brasil, Avenida Brasil e Droga Nova Republica que
foram gravadas em disco e comercializadas, em reduzida,
porém significativa tiragem.
Ao
longo desse processo, pude comentar, sem nenhuma censura
ou coerção de qualquer tipo, a quebradeira
dos bancos que se seguiu à imposição
de câmbios irreais dos pacotes econômicos,
a briga entre os egos imortais pela sucessão
de Jorge Amado, as garotas de programa como Hebe Camargo,
Ana Maria Braga e Adriane Galisteu, as passagens dos
Rollings Stones e Bob Dilan pelo botequim, até
mais recentemente a chega ao poder do nosso presidente
operário, com uma pitada irônica em cima
da novela Bang Bang, de Mário Prata da TV Globo,
antigo colaborador da nossa Careta.
Há
dias atrás soube da intenção do
editor de encerrar minha colaboração.
Depois
do choque compreensível pra quem fez desse universo
uma página da nossa história política
ao longo de vinte cinco anos, me surpreendi feliz pela
etapa cumprida em nossa transição rumo
à democracia neste país.
Está
aí o Lula, pronto pra disputar sua reeleição
para atestar ( e testar ) mais uma vez nossa democracia.
Sobrevivi,
ao longo desse período, a uma dezena de diretores
de redação que sempre compreenderam e
participaram alegremente desse desafio de criatividade
que a revista semanalmente nos impunha.
Mais
do que isso, pra quem durante tempo fez da sua vida
uma avenida, não há por que temer o olho
da rua...
Mais
uma vez tenho a chance de recuperar esse universo, agora
nas páginas da Revista de Domingo, no Jornal
do Brasil, onde espero me reencontrar com meus leitores
e criar uma nova legião de amigos a partir desta
experiência.