
"É
difícil falar sobre milagres.
Ou você acredita neles
ou não. Eu acredito.
No
quarteirão onde passei
minha infância, os milagres
aconteciam à toda hora.
Eram simplesmente parte da estrutura
de nossas vidas e tornavam-se
inseparáveis de eventos
explicáveis, sendo, no
final das contas, tratados como
se fossem realidade. Anos de
vivência têm o efeito
de amadurecer julgamentos e
inibir a aceitação
do inexplicado. Quando começamos
com relatos que não são
dignos de confiança e
carecem de evidência,
nos aproximamos do folclore.
Então, aquilo que alguém
se lembra desses eventos é,
na melhor das hipóteses,
pouco confiável.
O
processo de relembrar é
um trabalho de dedução,
algo como um antropólogo
reconstruindo um esqueleto antigo.
Os
contos neste livro se parecem
com histórias que meus
pais chamavam de "meinsas".
E, embora sejam apócrifos,
eles foram destilados das minhas
lembranças, que eram
um patrimônio comum da
nossa família. Por exemplo,
minha mãe podia apontar
para um velho alimentando pombos
no parque e me dizer: "Aquele
é um tio, por parte do
seu pai... Deixa eu te contar
sobre ele... É um milagre."
Na
verdade, milagres são
uma espécie de herança
cultural. Eu suspeito que, assim
como toda mitologia, eles ocorrem
periódicamente de geração
em geração. Certamente,
temas similares podem ser encontrados
no clássico folclore
Iídiche e em velhos contos
alemães, como a história
de Caspar Hauser.
O
fato é que nenhuma história
inexplicável ficava sem
explicação para
meus antepassados. Sem dúvida,
essa filosofia é um terreno
fértil para milagres.
Eu
conto essas histórias
sem inibir aquela sensação
de espanto que o tempo e a idade
não alteraram.
Eu
fico imaginando o destino bom
ou ruim dos amigos. Eu fico
imaginando o surgimento e a
partida de pessoas que conheci
e a duração milagrosa
de alianças impossíveis.
A
maravilha disso tudo ainda permanece
vívida em mim, o que,
em si, não deixa de ser
uma maravilha."
Prefácio de Pequenos Milagres
A
carreira de Will Eisner se estende
por toda a história das
revistas em quadrinhos, desde
os embrionários anos
30, atravessando os anos 40,
quando ele revolucionou a narrativa
da arte sequencial com sua série
mundialmente conhecida, The
Spirit, até seu trabalho
mais adulto que, começando
nos anos 70, levou à
criação do formato
contemporâneo conhecido
como "graphic novel".
Além de suas premiadas
graphic novels, ele é
o autor dos importantes estudos
"Quadrinhos e Arte Sequencial"
e "Narrativas Gráficas".
Considerado
o artista mais importante dos
quadrinhos e da cultura pop
do século XX, Will Eisner
faleceu no dia 3 de janeiro
de 2005, aos 87 anos de idade.
Saiba
mais sobre o autor e outras
de suas obras publicadas pela
Devir.
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