Incal - Volume 2

Incal: Volume DoisA história de INCAL gira em torno de John Difool, um detetive particular de quinta categoria num amanhã totalmente corrupto e insano. Seu mundo aparentemente pacato vira de cabeça para baixo quando ele encontra um antigo e misterioso artefato chamado “Incal”. Em pouco tempo, por mero acaso, Difool se vê envolvido num conflito de proporções épicas entre o Meta-Barão, considerado o maior guerreiro da galáxia, e os poderes do Tecno-Papa.

Uma das mais aplaudidas séries em quadrinhos no mundo todo, INCAL é uma verdadeira obra-prima escrita pelo chileno Alexandro Jodorowsky, co-criador de OS TECNOSACERDOTES e OS META-BARÕES, e roteirista/diretor de famosos filmes cults como O TOPO, SANTA SANGRE e A MONTANHA SAGRADA, e ilustrada pelo francês Moebius, o mundialmente aclamado ilustrador de inúmeras graphic novels e artista conceitual de filmes como ALIEN, O 8º PASSAGEIRO, O SEGREDO DO ABISMO e O QUINTO ELEMENTO. O resultado dessa parceria surgida nos anos 80 marcou para sempre o cenário da Ficção Científica e das HQs.

“Há algumas histórias que ganham fama não por um motivo apenas. Os motivos são plurais. INCAL é um caso assim. Tornou-se um marco da ficção científica em quadrinhos. Reúne reputação, criadores consagrados, enredo e personagens inovadores.”

– Paulo Ramos
Blog dos Quadrinhos

“INCAL é uma daquelas HQs que deixa o leitor boquiaberto, provoca taquicardia e faz com que ele fale alguns impropérios durante a leitura... É que a obra é boa demais mesmo!”

– Eduardo Nasi
Universo HQ

“A história do chileno Alexandro Jodorowsky é uma louvável e imaginativa mistura de vertiginosa ficção científica e bem-humorada fantasia, potencializada pelo sempre magnífico traço do francês Jean Giraud, o Moebius.”

– Érico Borgo
Omelete

  

Prefácio por Jodorowsky

O QUE ESTÁ EMBAIXO E O QUE ESTÁ EM CIMA

O que tentei fazer com O Incal – ou, melhor, o que eu fiz, já que a série terminou – foi criar uma história de ficção-científica que começa com um pequeno e aparentemente insignificante evento, que se desenvolve até adquirir enormes proporções cósmicas. O isolado, e quase particular, conflito do início se transforma numa rebelião planetária, que, em seguida, vira uma guerra galática e isso tudo termina com o destino do universo sendo colocado em perigo!

Considero O Incal uma trama clássica e emocionante, uma espécie de enredo de film noir a la Philip K. Dick*, que foi forçado até seus limites. Conforme o conflito sofre mudanças, de uma ameaça a um único personagem até uma ameaça a todo o Universo, isso também acontece com os próprios personagens. Durante o curso desta história, quase tudo passa por uma metamorfose sofrível. Isso ocorre porque acredito que a vida é feita de uma série de mudanças e evoluções perpétuas. Eu, certamente, não queria criar personagens que iriam permanecer imutáveis do início ao fim. De fato, acho personagens de histórias em quadrinhos deveras inalteráveis. Esse também é, com freqüência, o caso dos clássicos. Hamlet, de Shakespeare, por exemplo, continua quase o mesmo durante toda a peça. Eu não gosto disso porque creio que para viver a vida, as pessoas devem passar por mudanças internas e externas.

John Difool, por exemplo, nunca pára de mudar. Ele sofre metamorfoses, progride e, às vezes, regride. No segundo álbum, ele se torna um homem bonito. Em seguida, perde sua beleza quando perde o Incal, mas algo diferente continua dentro dele. Ele jamais será o mesmo depois disso. No início, John Difool é apresentado como alguém que não é muito inteligente, mas, gradualmente, vai ficando mais esperto. Ele nunca é um personagem totalmente honrado e sempre fica sujeito à tentação. Ele pode roubar, trair ou fazer qualquer coisa, pois é um ser humano. Às vezes, sua energia é positiva e, outras, negativa, mas nunca é devidamente canalizada. De certa forma, ele nunca tira proveito da sua própria energia, pois a utiliza parcamente e, via de regra, para o bem de outras pessoas.

Eu devo humildemente dizer que o personagem de John Difool não é verdadeiramente meu. A história de O Incal existia dentro de mim antes, mas quando abordei Moebius com a idéia de trabalharmos juntos, foi como caminhar em direção a um lago de cor. Para transmitir esta história, tive que mergulhar nesse lago, que era o subconsciente de Moebius. Isso proporcionou à história suas cores. Mas, num nível mais profundo, nos encontramos num lugar onde não existe ego, nada de “você” ou “eu”. Existia apenas uma história estimulante que não era de Moebius, nem minha. John Difool e o Incal se livraram de nós e seguiram em frente para viver suas próprias vidas.

O Incal tem um monte de conexões com o Tarô. Difool é, naturalmente, o Tolo, que sempre é acompanhado por um cãozinho ou algum tipo de bicho de estimação. Eu sempre achei que essa companhia animal simboliza a natureza bestial que existe dentro de todos nós. Em O Incal, esse companheiro é Deepo. Os outros personagens também têm relação com o Tarô: Solune é uma combinação dos dois arcanos: o Sol e a Lua; a tecno-cidadela é a Torre; há o Tecno-Papa e o Imperadortriz (Imperatriz-Imperador), que simboliza os aspectos masculino/feminino que todas as pessoas carregam dentro de si.

O Imperadortriz vive dentro de um ovo pelo mesmo motivo que Solune é o filho de John Difool. Cada um de nós, não importa o quão inferior, carrega dentro de si uma semente divina. Este conceito pode ser encontrado no “rebis” dos alquimistas (a coisa dupla)**. Em O Incal, a mente absorve todos esses símbolos subconscientemente. Mas, eu, essencialmente, planejei contar uma história de aventura, e não passar uma mensagem. No entanto, também sinto que a utilização de verdades esotéricas podem simplesmente enriquecer uma narrativa. Auspiciosamente, a história pode existir em ambos os níveis, como uma coisa divertida, que também encontra uma ressonância no subconsciente do leitor.

— Alexandro Jodorowsky

Notas da Tradução:

(*) Philip Kindred Dick (1928-1982). Escritor de ficção-científica, autor do romance “Do Androids Dream of Eletric Sheep?”, que inspirou Ridley Scott a fazer o filme “Blade Runner”.

(**) “REBIS” (RE = coisa; BIS = dois). A “coisa dupla” dos alquimistas, que é o nome dado à “matéria da Obra”, após a realização do casamento do Mercúrio com o Enxofre (Hermes e Afrodite) dentro do “ovo filosófico”. O “REBIS” é representado por “um corpo com duas cabeças”, expressando o HERMAFRODITA ALQUÍMICO ou HERMAFRODITA DIVINO.

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