Em
HQ, como no resto, não é fácil
conciliar quantidade e qualidade. A obra de José
Carlos Fernandes (Loulé, 1964), é
uma dessas exceções que confirma a
regra. O nosso mais prolífico autor de HQ
da atualidade, com mais de 1500 páginas publicadas
(e algumas centenas ainda inéditas) em apenas
12 anos de carreira, tem sabido aliar estas duas
vertentes, em dezenas de trabalhos notáveis,
publicados por quase outras tantas editoras.
Coração
de Arame, que assinala a estréia do
autor no catálogo da Devir, é das
mais míticas dessas obras, até porque
raros leitores a conhecem. Editada pela primeira
vez em 1997, numa tiragem quase confidencial de
apenas 250 exemplares, há muito esgotados,
Coração de Arame é uma fábula
intimista, em que o amor vence a morte, graças
à ajuda de um gato falante. Na linha de A Lâmina Fria da Lua, este
é um trabalho em que o desenho de Fernandes
não é apenas funcional, mas antes
condiciona a evolução da própria
história, numa tentativa muito conseguida
de, nas palavras do próprio autor, "explorar
coisas que Dave McKean mostrou que podiam ser
exploradas".
Nesta
história de um anjo sem asas que busca
refúgio junto de aviões que já
não voam, o talento de José Carlos
Fernandes permite-lhe elevar-se nos ares e atingir
os cumes apenas ao alcance dos grandes autores.
|